sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

a sede insaciável do rio

Chove sobre essa cidade e sobre os corações dos mortos e dos vivos que nela habitam.

Chove sobre essa cidade e sobre os sonhos que antecedem sua existência.

Chove sobre essa cidade e sobre suas esquinas encantadas.

Chove sobre essa cidade e sobre suas ruínas.

Chove sobre essa cidade e sobre seus feitiços, suas mentiras e suas esperanças.

Chove sobre o mercado, sobre o brega, sobre os terreiros e sobre as igrejas.

Chove sobre os sonhos que tive com essa cidade antes que ela existira.

Chove sobre a Serpente e sobre o veneno da Serpente.

Chove sobre as pequenas ilhas e as garças que nelas dormem.

Chove sobre as flores que semeei, sobre os frutos em germinação

        sobre o azeite que ferve no tacho da desolação.

Chove sobre o sono dos impávidos transeuntes que descansam a cabeça sobre a relva.

Chove sobre o que restou e sobre o que ainda não é.

Chove e nas águas que caem dos céus se percebe que há lágrimas, sangue e mel.

Chove sobre as orações dos cães, sobre as galinhas e sobre o pequeno cervo que vive às margens do lago da represa

Chove e o silêncio do sol se espalha como a noite imensa que nos salva de nós mesmos.

Chove e no meio das nuvens se pode ver uma tímida lua amarelada sorrindo.

Chove sobre a Faceira, o Toróró e o Engenho da Vitória.

Chove sobre a carne que é a face mais feroz do espírito.

Chove sobre as culpas, os pecados e o escárnio de todos os viventes.

Chove sobre a estupidez, a ignorância e a soberba humana.

Chove sobre os sentimentos de exaustão e repugnância.

Chove sobre o amor e a delicadeza.

Chove sobre os úteros em fúria e sobre os rios que compõem a paisagem.

Chove sobre os ombros de Tempo e sobre as ferramentas do Ferreiro.

Chove sobre a solidão, a angústia e o ódio que move astros e montanhas.

Chove sobre cada pensamento fascista e sobre a sombra que oculta cada gesto.

Chove sobre o Nada e sobre tudo que é inexistente.

Chove sobre os medos imaginários e sobre o ruído dos motores.

Chove sobre o sexo das meninas do brega.

Chove sobre a droga enterrada nos quintais.

Chove sobre a lápide do túmulo do meu filho.

Chove sobre o futuro corrompido e as pessoas anestesiadas e sonâmbulas.

Chove sobre os rostos envelhecidos e as saudações estéreis.

Chove e a alegria reina em cada gota de chuva.

Chove sobre a flor em febre e sua agônica maneira de estar no mundo.

Chove sobre os breviários onde estão catalogadas a traição e a falsidade da espécie.

Chove sobre os escorpiões e sobre o esperma derramado sobre a tristeza do lajedo.

Chove sobre as crianças, sobre os velhos, sobre os aleijados e sobre as formas indefinidas.

Chove sobre as palavras que ainda não nasceram.

Chove sobre tudo que até ontem parecia morto.

Chove sobre a crença bestial que move cada ser vivo.

Chove sobre as urtigas, sobre a covardia e sobre o gozo antecipado.

Chove sobre os insanos acarajés de realidade e sobre a poesia de Ronny Bonn.

Chove sobre o café e sobre a sonolência dos bêbados que amanhecem na rua da Feira. 

Chove sobre nossos ancestrais e nossos descendentes.

Chove sobre a igreja matriz e sobre a estátua de Nossa Senhora do Rosário.

Chove sobre cada passo de Chuín em direção ao amanhã que se dissolve.

Chove sobre as mentiras e sobre os ensinamentos que só a mentira é capaz.

Chove e a água escorre nas ladeiras do Quebra-bunda e do Manoel Vitório.

Chove sobre o rio pitanga e sobre a ladeira da cadeia.

Chove sobre a violência do passado.

Sobre a estupidez do presente.

E sobre a memória de todos os raios que anunciam o florescer da lúcuma, o desabrochar das                           espadas e a súbita aparição das roxas flores do Senhor São Miguel...

nuno g.
Toróró, 20 de fevereiro de 2026.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O céu dos suicidas

Amanhã haverá eclipse.

E anéis de fogo incendiarão o céu da Antártida.

Seguirei aqui. Neste não-lugar de vinho em perpétua fermentação.

Com minhas mãos trêmulas acendendo velas aos suicidas.

E a chama da esperança que ainda deverá seguir queimando após a festa da carne.

Amanhã haverá eclipse.

Apesar de tudo ainda não será a hora do céu cair sobre nossas cabeças.

E o cheiro das últimas trepadas de carnaval estará disperso na atmosfera.

E os uivos e os gemidos e os berros das últimas trepadas de carnaval estarão dispersos no ar.

Serpenteando entre todos os versos que foram escritos pela Voz no ar.

Nas mais estranhas línguas jamais imaginadas.

Amanhã haverá lagrimas.

Uma flor arde em febre e a terra apoderada pela mais brilhante convulsão.

Seguirá girando entre as covas rasas e profundas dos suicidas.

Com suas estrelas e astros imprevisíveis.

Apesar da flor que arde em febre e seus banhos de paracetamol e codeína.

Apesar da flor que vomita a herança de todos seus antepassados.

E chora. E chora. E chora.

Neste não-lugar de vinho em perpétua fermentação e sonambulismo.

Amanhã haverá mais um eclipse.

E os cães. E os gatos. E os veterinários e os pediatras que cuidam das flores e

    as protegem da fúria assassina dos jardineiros

       estarão mergulhados na insana festa da carne e do sangue.

Amanhã haverá eclipse.

E dessa vez nenhuma profecia estremecerá o sereno transcurso do tempo.


nuno g.

16 de fevereiro de 2026.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O livro de Hermenegildo

Existe um saber que é do Mundo e um saber que é da terra.

Assim como existe um Sonho que sonha todos os sonhos que recordamos ao amanhecer.

O arco-íris segue matando a sede nas águas do rio.

E quem nos protege nos pediu outra vez dois cigarros.

Acesos. Como a boca da Serpente que nos guia.

A morte, apesar de já sabermos ser uma ilusão, é quem nos guia.

Para além de nós mesmos e da miséria que assola a imaginação.

Tempo balança as folhas e as asas dos beija-flores.

Quando todos se dizem poetas sabemos que a poesia entrou em estado terminal.

E todas as coisas importantes e necessárias estão mesmo em extinção.

A luz do amor é escura.

Quem conhece o fogo sabe que somos menos e que nisso reside o que importa.

Os gatos vem e vão como as algas marinhas.

A chuva tarda, mas chega.

Existe a sabedoria e o conhecimento.

Ao primeiro todas as nossas dívidas.

Ao segundo todo nosso reconhecimento.

Na sombra qualquer espelho reinventa sua serventia.

A lágrima de uma criança é da mesma natureza das nuvens.

Linguagem que não deciframos antes de ser devorados inteiramente.

O temor ao caos é insano, estúpido e egoísta.

Só à dor nosso respeito em sua máxima intensidade.

Na lua o seio que goteja o leite por todo o sempre.

Até que os cegos cheguem à fronteira e vejam que não há abismo.

Que nunca houve abismo.

E que deus é a palavra mais bonita para nomear o inominável.

Não há solidão sincera onde não habite o que a linguagem vulgar chama Além.


nuno g.
Toróró, 13 de fevereiro de 2026.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Recém-parido

Nem tão frágeis são os ossos.

(...)

Muito cuidado com o recém-nascido.

Adélia Prado.


Era dia de caça.

Nem todas as rotas levam ao coração.

O sol escorregou sangrando por essa fenda entre tuas pernas.

E minhas mãos tocaram outra vez as areias do deserto.

Era dia do caçador.

Apenas uma rota leva ao coração.

Onde a lua ferve depois do desfecho inevitável.

E minhas mãos rogaram para que o Nada tornasse ao seu trono.

Era dia da caça e do caçador.

Que o coração invente sua rota.

E se liberte do cárcere da promessa do paraíso.

Não há flagelo maior que aquele que está por vir.

Era dia de louvar a mulher que pariu o sol.

Era tempo de saudar a batalha dos condenados a esculpir estátuas de sal.

O sangue que banhava o recém-nascido.

E a vontade de esquecimento que saltava do inferno de seus olhos.

Até os ossos mais resistentes viram cinzas.

Com clemência e piedade oramos ao cetro onde se apoia o rio curvo.

Os mortos clamam: abandonemos o temor às tentações.

Na floresta toda resistência é inútil.

Qualquer dia amanheceremos irreconhecíveis.

A moça do cartório registrou dezembro em sua ata de nascimento. 

E com pluma leve e sorrateira escreveu nas águas radiantes:

Muito cuidado com o recém-nascido.

Os céus o protejam da angústia que caminha com a esperança.



nuno g.

Jesús María, 01/01/2026.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

piedade

Cortez queimou os barcos para que seus marujos sentissem na alma o que é não ter onde regressar.

Desde então recordo aquela praia e aquela igreja: unidas pelo destino de meu nome e do sangue que me trouxe à terra.

E toda segunda-feira torno a pisar o chão onde avistei o arco-íris, a serpente e o jaguar.

Alice me abraça como quem abraça o viajante que parte para nunca mais voltar.

Assucena me olha como quem olha quem lhe recebeu no parto.

No céu os pássaros semeiam tempestades.


Muitas vezes o que se espera ser uma alegria revela-se mero alívio.

O mar é uma encruzilhada onde todas as águas se abraçam.

Como quem se despede para sempre.

Como quem nunca termina de chegar.

No céu os pássaros semeiam o silêncio que antecede as tempestades.


Cortez queimou os barcos para que não houvesse forma de regresso.

Não sabia que nunca se regressa aonde nunca se esteve.

O mar é a encruzilhada onde todas as águas se unem e se apartam.

No céu os pássaros semeiam as estrelas que nascem após as tempestades.


nuno g.
22/dezembro/2025.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Emoliente IV

Poesia é o uivo de um cão sem plumas à Lua Suicidada.

Ou como quase disse certo diplomata pernambucano.

A pedra do sono sonha um mundo menos vulgar.


nuno g.

Emoliente III

Ao contrário do que disse certo francês.

Tão cultuado quanto equivocado.

Poesia é a zarabatana que arremessa dardos enfeitiçados.

Em direção ao Sol do Esquecimento.

Ao contrário do que disse certo francês.

Tão cultuado quanto equivocado.

Poesia acontece quando a linguagem fratura a imagem do real.

Envenena os sentidos ordinários.

E cruza ilegalmente a fronteira entre o sonho e a insônia.

Ao contrário do que disse certo pernambucano.

A poesia está mais próxima da feitiçaria do que da imaginação dos engenheiros.

Na Conspiração da Febre a transpiração é menos que a inspiração.

Poesia é quando um cão sem plumas corre em direção contrária ao mar.


nuno g.

Emoliente II

Ao contrário do que disse certo francês.

Tão cultuado quanto equivocado.

Poesia não se escreve com palavras.

Poesia se escreve com ossos desenterrados.

Com vísceras íntimas e com os gritos dos corpos torturados pelos golpes de Estado.

Ao contrário do que disse certo francês.

Tão cultuado quanto equivocado.

Poesia se escreve com sangue.

Com rios, estrelas e aporias que escapam à função comunicativa da linguagem.

Ao contrário do que disse certo francês.

Tão cultuado quanto equivocado.

A vida não é um jogo de dados girando ao acaso.


nuno g.


Emoliente

Ao contrário do que disse certo francês.

Tão cultuado quanto equivocado.

Poesia é tudo que não se escreve com palavras.


nuno g.



quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

canto para meus amigos imaginários

 

a nostalgia é um sentimento enganoso

Larissa Gonçalves Ferreira


Era uma vez uma aldeia feita de piçarra vermelha e água da chuva.

Nela não havia morte, não havia nada que recordasse a presença rude e áspera da morte.

As tardes escorriam por entre os dedos das pessoas que envelheciam e se afogavam em insônias.

Era uma vez uma aldeia sem nome onde sempre era dezembro.

Os amanheceres eram frescos e saudáveis como os cajus que nascem nos arenosos tabuleiros.

E as noites eram infinitas como infinitas são as várzeas do baixo Jaguaribe.

Era uma vez uma aldeia feita de piçarra vermelha e ossos.

Todos seus habitantes estavam mortos, embora nada lhes recordasse sua condição.

As palmeiras de carnaúba, o açoite do vento Aracati, o desespero atávico.

Tangendo o eterno dezembro que nunca passa.

Tangendo o eterno dezembro que nunca chega.

Tangendo o eterno dezembro para os confins do deserto.

Onde tuberculosos e sifilíticos dançam a ciranda do daimon arcaico.

Onde o Anjo Vermelho celebra a memória de seus próprios aboios.

O vento Aracati, implacável, tangendo incêndios e ruínas.

E oferecendo com suas mãos aéreas e insanas o sangue subterrâneo e a luz esverdeada.

Que povoa os despovoados sonhos da criança que insiste em escalar montanhas.

Na esperança absurda de tocar com os cílios os raios do sol esquecido.

Era uma vez uma melancólica aldeia perdida entre o nada e o nada.

Onde cardumes de abelhas teciam suas colmeias no corpo do esquelético e assustado espantalho.

E o som da pólvora se misturava à voz doce e delicada do Anjo Azul.

Trovões e raios se escutavam e se avistavam por todos os lados.

E as pessoas, apesar de abstêmias, pareciam todas embriagadas.

E a fumaça tóxica e aromática dos cigarros se fazia sentir em cada recanto.

Era uma vez uma aldeia onde todas as árvores estavam esclerosadas.

Onde apenas as pedras não padeciam do mal de Alzheimer.

E o som da pólvora se misturava ao negro do luto e ao silêncio que antecede qualquer tragédia.

Era uma vez uma aldeia repleta de cata-ventos e tapetes voadores.

Enraizada sob um céu estrelado e imenso.

Onde não havia morte nem qualquer sinal da existência da morte.

Onde todos estavam irremediavelmente mortos.

Era uma vez uma aldeia atravessada ao meio por um grande rio.

Em sua lâmina se refletiam todas as mentiras do mundo.

E o medo estúpido que seus habitantes carregam sobre os ombros.

Como as formigas carregam toda sorte de vestígios do passado que encontram pelo caminho.

Era uma vez uma aldeia onde morcegos e abutres alimentavam-se do lodo.

E dos líquidos que jorravam abundantemente dos olhos cegos de seus habitantes.

O vento Aracati, impecável, varrendo para os confins do mar desconhecido.

O precário, o provisório, o obtuso e o indefinido.

E as lâminas das divindades das madrugadas decepando com delicadeza o sino da catedral.

Enquanto as feras, sob as ordens do Sétimo, passeavam com seus cálices metálicos.

As cabras orando às nuvens e à Senhora de todas as nuvens.

E as pessoas bebendo, finalmente, o sangue de seu próprio corpo.

Era uma vez uma aldeia onde as crianças eram gestadas fora dos ventres.

Nas praças, nos becos e nas calçadas.

Nas águas dos açudes com suas sombras peregrinas.

À luz da lua e das lamparinas de querosene.

Era uma vez uma aldeia onde tudo estava por acontecer.

Onde se comia feijão com as mãos e com farinha.

Onde se amava o escuro e a solidão.

Ondo os solilóquios eram a regra e os diálogos a exceção.

Onde o silêncio uivava aboios incompreensíveis.

Onde tudo estava por ser traduzido e toda história era sentida como tradução.

Era uma vez uma aldeia feita de piçarra vermelha, nostalgia e água da chuva.

Sim, a nostalgia nada mais é que uma serpente traiçoeira e exigente.

Em sua memória e devoção entrego-lhe este poema.

Que, por certo, não é exatamente um poema.

É outra forma de traduzir veneno para a língua do sangue e dos anjos.

Onde tudo que se diz é eco, passagem e oração.


nuno g.

Lima, 11 de dezembro de 2025.


sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Poema de abril

Todo se inicia, y todo termina en amor.

Enrique Verástegui.


Recém me chegou esse poema encharcado de abril suando por todos os poros.

Não sei por quais caminhos terá se perdido entre as movediças fronteiras das estações do ano.

Nem por quais razões terá extraviado essa correspondência do além.

Talvez pela imperícia dos mensageiros ou por mera distração do destinatário.

O esperava com a mesa posta e farta.

Repleta de ervas mágicas e conjuros de toda sorte.

O esperava com as mãos cheias de amor e ansiedade.

Recém me chegou esse poema composto com ilusões, tristezas e esperanças.

Com passos leves e desconfiados que se assemelham aos passos de um filho pródigo que retorna ao lar que abandonou sem deixar qualquer aviso ou mensagem.

Batendo as asas como um passarinho assustado que regressa ao ninho de onde nunca desejou ter partido.

Como um vento arrancado ao útero de um vulcão.

Recém me chegou esse poema esvaziado de lembranças e recordações.

Um poema encharcado de abril e de vazio.

Correndo como um esquilo entre milhares de esquilos.

Sorrindo como sorri um coelho perdido num campo de cenouras.

Esse poema fala sobre a condenação de Sísifo e Prometeu.

Nos recorda que a busca pela liberdade nos conduz a novas amarras e prisões.

Nos recorda que não nos resta outra coisa senão seguir empurrando pedras montanhas acima.

E que a diferença entre sonhos e pesadelos reside unicamente nos juízos de valores que estabelecemos.

Não sei quem escreveu este poema.

Embora desconfie que somente eu poderia tê-lo escrito.

Este pressentimento vem da saudade que sinto daquelas tardes na avenida Tristão Gonçalves.

Este pressentimento vem das intuições que ele carrega como se fosse uma carga de prata.

Este pressentimento vem da consciência desgarrada da história que faz florescer em meio à tempestade de minha inércia e pessimismo.

Este pressentimento é o mesmo pressentimento das árvores ante o insondável inverno.

Este pressentimento é uma equação matemática extraída das alucinações dos anjos.

Recém me chegou este poema que guardei no bolso como se fosse um grilo atordoado.

Um grilo espavorido no meio de uma cidade absurda mergulhada em névoa e neblina.

Apesar de tudo este poema grita.

Apesar de tudo este poema ama.

Apesar de também sussurrar que sempre foi tarde e que todo esforça é inútil.

As tardes da avenida Tristão Gonçalves não existem mais.

Só me resta a imagem do vale do rio das onças que colhi no cume da cordilheira dos andes.

Só me resta esperar que este poema tenha fome e sede outra vez.

E que devore todas as ervas mágicas e os conjuros que à mesa lhe esperaram todos esses meses.

Como uma criança espera que o mundo a receba com amor.

Como um cadáver espera que a terra lhe devolva à condição de cinza.

A poesia é qualquer coisa menos um jogo,

mas se fosse um jogo seria certamente um tabuleiro de xadrez.

A poesia é o caminho pelo qual encontramos deus em nós mesmos.

E nele a morte e todos os segredos que nos confia a morte.

Apesar de tudo este poema chegou.

Suado, cansado e abarrotado de pressa e esquecimento.

Apesar de tudo ele está aqui.

Como uma doença que guarda o mistério da própria cura.

Como a voz de alguém que antes de se suicidar apagou a luz da sala e do quarto.

Como uma estrela que ainda brilha depois de extinta.

Como o sopro de um tapuia ou o demônio da cronologia, essa criatura perversa e insensata que nos encarcera no labirinto do qual acreditávamos ter escapado.

A maldade, assim como a bondade, encontra-se em todos os lados.

Ao final das contas são somente modos da nossa percepção.

Limitações que nos pertencem como um afeto sobre o qual não temos nenhum controle.

Esse poema me trouxe também o nome do poeta que eu buscava.

Para minha surpresa soube também que foi precisamente na quadra 23 da avenida Arequipa, onde comprei todos os cigarros de abril e maio, que seu corpo tomou impulso e foi soterrado por um automóvel desgovernado.

Me pergunto sobre a cor deste automóvel inocente e culpado e o vento me diz que ele era verde como os automóveis verdes e uivantes que algum dia me atropelaram em algum lugar entre a cidade 2000 e o Dionísio Torres.

Recém me chegou este poema esverdeado de abril e acrílico.

Esta tapeçaria e mosaico onde as coisas soterradas desvanecem e perdem sentido e abrem veredas para que o nada e o vazio se manifestem no coração da memória material da cegueira.

Entrego-lhe meu amor e minha ansiedade como um precioso tesouro guardado por meses a fio.

E me recolho no caracol onde o semblante do eremita se traduz no semblante do enforcado.

A duras penas esse poema finalmente chegou a seu destinatário.


nuno g.

Lima, 21 de novembro de 2025.

 




domingo, 16 de novembro de 2025

O eremita abraça o mar imaginário

 

Até aqui cheguei.

Seguindo cada signo de cada pesadelo.

Observando as cores das escamas da Serpente.

Traduzindo as línguas desconhecidas em que o Mago pronunciava o impronunciável.

Até aqui cheguei.

Estudando a memória de cada passo e a direção dos ventos.

Seguindo com as asas que o Mundo me ofertava à luz das nuvens de vagalumes.

Até aqui cheguei e já não há mais para onde ir.

Não há mais como fingir que sou o mesmo que antes.

Que posso manter conversações desconexas.

Que posso ser sociável e simpático.

Não estou mais aqui.

Depois de tudo finalmente pude reconciliar o irreconciliável.

Abraçar o mar e todas suas escamas.

Abraçar a Serpente e todos os seus venenos.

Terminei por transfigurar-me na montanha que me salvou de mim mesmo.

E já não sinto necessidade de qualquer diálogo que não seja imaginário.

Até aqui cheguei.

Com meus suicidas, meus pistoleiros, meus filhos não-nascidos.

Com minha borboleta preciosa e minha flor sertaneja.

Nunca estive tão próximo do canto das onças.

Nunca estive tão próximo de ser esse cântico que por toda a estrada esteve comigo.

Nunca estive tão próximo de amar o que chamam de solidão.

E nunca foi tão desnecessário estar junto à multidão.

Tudo se desfaz com uma velocidade impressionante.

Os arcanos menores me trouxeram até aqui como os anjos levam as orações enlutadas.

Como os condores levam as almas dos mortos.

Como meu avô levou a dor e os ossos até o túmulo de azulejos azuis.

É domingo, mas já nada importam os dias da semana ou os meses do ano.

Há plantações de uvas e cheiro de vinho transbordando deste poema.

Que não é um poema, mas a densa descrição de uma sina.

Que não é um amontoado de versos, mas a fogueira onde arde e se revela um destino.

Até aqui cheguei.

E trago comigo a velha e amada mochila cheia de esterco e sonhos.

As marcas de todos os delírios convertidos em cicatrizes e espalhados pelo meu corpo.

Que já não é mais um corpo e sim uma carcaça que envelhece.

Na mesma desmedida da impossível descoberta que só nas coisas inúteis a plenitude é alcançável.

Meu barco pirata segue ao mar.

Mareio, vomito, embriago-me de náuseas e alucinações.

Avisto as ilhas onde se recolheram os poetas de todas as épocas.

Essas precárias estações onde os arcanos menores guiam os cegos.

Até aqui cheguei.

Agradecendo as mutilações que me afastaram da morte.

Relendo as cinzas e as lembranças dos incêndios que me alimentaram. 

Como o Senhor alimenta pássaros e peixes no deserto onde não há morte.

Até aqui cheguei. 

E agora só me resta esperar e narrar como atravessei o precipício entre o Nada e o Nada.

Como amaldiçoei toda a desumanidade das mãos que me amordaçaram.

Como me livrei da violência do mais prolongado silêncio.

Como chorei ao ver o Senhor alimentando peixes e pássaros no deserto onde não há morte.

Envelheci, sangrei e aprendi que o excesso de chão é apenas um momento que antecede a chegada.

Meu barco segue no mar. 

E os piratas que nele cantam, dançam e bebem.

Estão cansados demais para regressar.

Eles agora conhecem as montanhas e trazem no corpo o cheiro das montanhas.

Já sabem que a morte não existe e já nada mais lhes resta senão morrer no mar.

Eles agora estão esgotados.

Nada mais têm a aprender ou ensinar.

Já não lhes importa se alguém se vê triste ou alegre.

Toda nossa existência agora se resume a manter a incandescência de estrelas que não existem mais.

E nossa última alegria é olhar o eremita abraçar o imaginário mar.


nuno g.

Lima, 16 de novembro de 2025.

 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

canto para meus amigos

meus amigos estão nus e dançam no deserto onde a morte não existe

estão famintos e sedentos e brincam com animais estranhos que saltam de um oásis a outro

como os pensamentos e os sonhos e os afetos

e todas as coisas que se permitem ser atraídas para fora do leito determinado

meus amigos estão outra vez reunidos em volta do fogo

e conversam sobre o terror em Gaza sobre o amor sobre a fúria que vem das estrelas

e sobre coisas incompreensíveis sobre sentimentos impronunciáveis

e fazem amor com as pedras com as árvores com as águas

trazem os corpos lambuzados de mel e em seus sorrisos abundam pressentimentos

de uma atmosfera ardente e cheia de esperança e de luz e de oxigênio e de desejo

e de uma carne que arde tão intensamente 

que chegamos a desconfiar que é algo além de carne

e em seus olhos orbitam planetas astros meteoros e outras feras inomináveis

meus amigos estão mais famintos que os famélicos da terra

mais sedentos que os grãos de areia do deserto

onde habitam e descobrem que a morte nunca existiu

e que a vida é um sonho interminável e que todos os labirintos são invenções

de divindades cruéis e perversas que nos amam tanto e com tanto fervor

que nos obrigam a nos arrastarmos pelos subterrâneos obscuros

em busca de objetos sagrados e misteriosos

mesmo sabendo que a única coisa realmente sagrada e misteriosa

é a força do poema é a força do sexo é a força que une uma geração à outra

é a força que pulsa na carta do enforcado enquanto a luz exibe sua exuberância no céu

da cidade cinza construída às margens do mar no coração do deserto

onde voltamos a nos encontrar para celebrar o fim do mundo

e a posse da sabedoria do abandono e a descoberta de que sempre estivemos perdidos

e de que nada disso era misterioso nem sagrado e que apesar de tudo

restará sempre essa força que conduz nossos corpos ao sexo e nossas mãos

ao poema e enquanto cantamos aos ossos enferrujados vislumbramos automóveis verdes

cruzando a noite a madrugada e a fumaça das ervas que fumamos e fumamos

desesperadamente como quem sabe que apesar de não existir a morte está presente

e a qualquer momento pode nos abraçar e nos levar do deserto

e enterrar tudo que somos em algum lugar extremamente branco e frio

onde as mãos do Anjo Azul não poderão chegar

e o canto das onças e do vento Aracati não poderá ser escutado

e as feras nos avessarão as vísceras e estaremos outra vez distantes

em Milão no Aquiraz nas ruas do Benfica ou em algum estranho rincão da América Latina

onde se sucedem golpes de estado e florescem tiranos e ditadores

e onde o silêncio parece ser uma glória inalcançável

e o poema se esconde entre nuvens de agrotóxicos

e as flores insistem em florescer e iluminar o deserto e acender as brasas do amanhã

e dizer não não não não não infinitas vezes

e escrever poemas e mais poemas e mais poemas e mais poemas

sonhando com amigos que estão agora no Crato ou na Cidade do México ou

em alguma ilha perdida do Pacífico ou em São Bernardo das Éguas Russas

ou nas assépticas ruas da triste e entediante cidade de São Paulo

ou nos puteiros da heroica e insana cidade de Cachoeira

enquanto a corrupção o narcotráfico e a imundície do coração sujo dos homens sujos

vai corroendo nossa esperança e nossa vontade de trepar 

e nossa necessidade de escrever cem mil poemas 

para todos os arcaicos demônios que nos guiaram até aqui e enquanto dançamos

acendemos velas e mais velas e mais velas que vão formando arabescos intermináveis

e incompreensíveis e vão povoando o mundo de uma beleza rara e invencível

que desafia a morte e o deserto onde a morte nunca existiu

e os meus amigos vão aparecendo e desaparecendo como as ondas de vaga-lumes

que cruzam as florestas em direção a algum lugar onde nunca estivemos

e onde acreditamos que devam estar germinando as sementes do amor e do tesão e da gula

e da febre e dos milhares de poemas que esperam a hora de vir à flor da pele 

meus amigos cantam um canto estranho onde a morte não existe

e tudo está vivo e tudo se entrelaça com tudo

como cipós raízes e todas as formas de vida que se juntam nos corais e todas as cores

que existem nas pinturas e nos sonhos e nos corpos dos jovens que vivem como

se não houvesse amanhã nem ontem nem agora nem nada além

do além onde estão imersos e onde se beijam se abraçam se lambuzam de mel e se tocam

e produzem sons e uivam e gemem e soletram rosas e girassóis e entram em transe

e começam a entoar cânticos antigos em línguas que todos acreditavam mortas

e essas canções dizem exatamente que a morte não existe 

e que os desertos são mais que desertos e que os poemas são mais que poemas 

e que a vida é mais que a vida e que os sonhos são muito mais que simples sonhos 

e os meus amigos vão se despedindo e desaparecendo e

vão outra vez me abandonando e apenas o silêncio e a luz do silêncio e o escuro do silêncio

e a grande noite do silêncio vai se expandindo em meu tórax e vai se transformando numa

capa de chuva ou num caracol imenso onde meu corpo vai se recolhendo

e vai definhando e vai murchando e minhas mãos agora aprisionadas

escrevem em suas paredes internas mais um poema 

que é mais um grito que é mais que um grito

que é uma maneira de produzir desertos onde não existem mortes

onde dançam meus amigos com animais estranhos e coloridos

onde transam meus amigos e se lambuzam de mel e de fezes e fumam ervas de esperança

enquanto a guerra a miséria o ódio vai destruindo a terra

e os homens de corações sujos vão corrompendo o milagre da vida

e os jornais vão espalhando mentiras e mais mentiras que são mais que mentiras

a morte não existe a morte não existe a morte não existe a morte

é mais que a morte é seu aquém é seu além é seu entorno é sua promessa é

a flecha que dela escapa em direção ao rosto e à máscara

uma puta passa na madrugada e meus amigos brincam com ela 

e ela brinca com meus amigos e nós brincamos como

crianças que sabem que tudo é deserto 

e que no deserto a morte não existe apesar de sabermos também

que estamos todos mortos e que a vida é um poema

nada mais nada menos que um poema 

que escrevemos nas úmidas paredes do caracol

onde fomos aprisionados 

antes que pudéssemos decidir uma vez mais regressar aos braços do fogo 

onde estão reunidos os meus amigos e suas capas de chuva e suas pequenas alegrias 

e suas insensatas maneiras de dizer de pensar de sentir e de ser o que são 

e o que nunca foram nem nunca poderão ser

meus amigos estão todos aqui reunidos neste lugar onde a morte nunca existirá outra vez

estão famintos e sedentos e brincam e dançam com animais que nunca existiram


nuno g.

Lima, 11 de outubro de 2025.


sábado, 4 de outubro de 2025

pedagogia

como ensinar aos filhos que há sempre um abismo entre o que queremos e o que é

    como ensiná-los que os sonhos não são fuga e sim caminho árduo e tarefa

          como aprender com eles a cair uma e outra vez e ainda assim seguir subindo

              como deixar que eles nos mostrem que o tempo não é uma linha

e que progresso e evolução são meros preconceitos de uma época adoecida

  como seguir caminhando depois de saber que nas águas os corpos afundam

      como olhar nos olhos dos grãos de milho que ofuscam a verdade de nossas retinas

          como a coragem de abandonar o que somos para que a criança nos guie 

como ensinar que não há morte sem vida

  e que todo choro contêm mundos

como despertar e despertar e despertar quando o sono parece invencível

  como aprender com as crianças que a prosa há de passar e o desencanto é provisório

     como sobreviver à ferocidade que respira em nossa nuca

como tocar os dedos e os cabelos da alegria que vem de longe e que é vento

como dizer fogo fátuo numa língua que não traz palavras 

como dançar ciranda e entender que tudo é perversão e brincadeira

  e que não há tanta distinção assim entre a crueldade e o prazer

como guiar na guerra e reconhecer quando a trégua se faz necessária

  como não desistir quando se percebe imerso na cegueira do absoluto

como ser rio e árvore ao mesmo tempo

  e remar com as unhas até a margem inexistente

como demonstrar com gestos que o amor é um sol que se confunde com esquecimento

  como ser lua quando tudo é eclipse e eternidade

como sair de si para chegar a ser o que se é

  como viver sem recordar o nosso nome a nossa face & os afetos que nos antecedem

como lembrar que somos corpos e que em nossos corpos pulsa a aurora febril do gozo

como aprender a ser o que não se é para se chegar onde sempre estivemos

como caminhar no fio amolado da faca que une e separa a morte e o nada

como não dizer essa larva que ferve em nossos subterrâneos

  como ser poeta sem deixar de ser humano

    como ser humano quando a humanidade se converte em mão que apaga sonhos

       como não deixar de lado as ruas e as praças ainda sem sair de casa

com qual tinta se escreve na umidade íntima dos caracóis

com quais cores se desenham as escamas das serpentes

quantas crianças são necessárias para que possamos chegar às nuvens

como ensinar aos filhos que a dor é necessária

  e que é preciso saber a arte de abraçá-la

     e que é preciso entoar canções para afugentá-la

        e que é preciso conversar com fantasmas e habitar ruínas

           e que é preciso desfazer-se das roupas que não servem mais

              e que mesmo mutilados e cheios de cicatrizes

ainda temos essa língua que se desdobra em direção ao infinito

como conservar delicadezas quanto tudo é monstruosidade

  como apagar incêndios e seguir amando o fogo

como acatar os imperativos da estranha lucidez que arde nas vísceras da loucura

como reunir em um mesmo movimento os sentimentos nascidos em diáspora

  entre o que seduz e o que é seduzido existem muitos túneis

em todos eles há sempre uma criança dizendo sim

    e estendendo a mão ao tenebroso que solicita seu carinho

  entre uma e estrela e outra haverá sempre uma tempestade

e só as crianças guardam asas para atravessá-las

  Hermenegildo aqui. Escrevendo com grãos de areia e milho um livro Vermelho.


nuno g.

Lima, 04 de outubro de 2025.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

o caracol e a serpente

 

para Andrés Caicedo,


amigo, tua voz me atravessou antes da despedida do sol

                                                 antes da chegada da lua

                                                 antes que o canto das estrelas ecoasse sobre o Não-Lugar

não sei como chegastes à intimidade do Caracol

           mas quando mirei esse pequeno escuro 

           vi o semblante de tuas mãos obscuras escrevendo poemas & mais poemas

e enquanto caminhava pela avenida Cuba

           vi teus paisanos vendendo arepas y palta para guacamole

pertencemos à mesma confraria

    a dos que nascem com a morte dentro

    a dos que aqui estando nunca estiveram

tua morte coincidiu com meu nascimento

   ou seria o inverso?

1977 1977 1977 1977 1977 1977 1977 1977 1977 1977 1977

com respeito e com urgência amigo,

as escamas da serpente são agora as letras dos poemas que estás a escrever na intimidade

                                                                                  do caracol,

com urgência e com respeito, a morte não existe

                                                a morte não é solução

nós que nascemos com ela dentro sempre aprendemos tarde

   embora nunca seja tarde

tua voz me atravessou

tua voz

ecoando do íntimo do caracol úmido e abrangente

cada letra da belíssima carta que deixastes à tua mãe

sabendo que cartas de suicidas são um gênero literário

e se dirigem a toda humanidade


nuno g.

01 de outubro de 2025



          

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Teoria dos gatilhos

Estamos em setembro e todos estão muito preocupados com os suicidas.

É muito difícil mesmo lidar com as vozes dos suicidas.

Sempre mais fácil esconder-se atrás de uma bandeira amarela.

Os suicidas são os únicos que nunca vão pronunciar as mentiras que você deseja ouvir.

E nenhum ministério os silenciará.

Os suicidas não são um problema de saúde pública.

São a prova cabal do fracasso do projeto de civilização onde estamos mergulhados.

Toda escuta burocrática é surda às vozes dos suicidas.

Nenhuma bandeira amarela é suficiente ante o vento que sopra do absurdo.

Ninguém se suicida por temer a luz do sol.

O que temem os suicidas é esse temor ao escuro que serve de fundamento.

A uma sociedade que se enterra com suas próprias mãos.

E que oculta de si mesma sua própria sombra.

Os setembros amarelos são só mais uma tentativa imperfeita e violenta.

De tentar silenciar o que não pode ser silenciado

                              o que não quer silenciado

                              o que não deve ser silenciado

                              o que nunca foi nem nunca será silenciado

A verdade que ecoa nas vozes dos suicidas diz muito sobre a enfermidade do mundo.

Eis a razão pela qual a cultura as converte em tabu

                                                 as condena ao esquecimento

Procura esvaziá-las reduzindo-as à esfera do que é individual.

Ocultando em seu gesto tudo que transcende o biográfico.

Preservando-se da severa e agônica condenação que trazem à tona. 

A convivência com a dor que sustenta a existência coletiva é insuportável.

As vozes dos suicidas ignoram os meses e as cores.

O que elas exigem é a coragem de uma escuta autêntica e radical.


nuno g.

24 de setembro de 2025.


terça-feira, 23 de setembro de 2025

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Ayahuasca (César Calvo)

A ayahuasca não é um prazer fugidio, acaso ou aventura sem semente como para os wiracochas[1].

A ayahuasca é uma porta, mas não para fugir, e sim para entrar nestas e outras naturezas. Para percorrer as províncias da noite que não têm distância, inabarcáveis.

A luz da ayahuasca não explica, não revela mistérios.

A ayahuasca rega a terra desconhecida e essa é sua maneira de alumiar.

E quando se chama com urgência e com respeito, a ayahuasca é a lâmina de uma faca de pedra. Separa o corpo da sua alma.

Se uma alma está enferma, a separa de sua matéria dura, nega o contágio, o empala.

A ayahuasca ensina a origem e a localização do mal. E diz com quais cânticos, com quais ícaros[2] o espanta.

E se o corpo está enfermo, igual. O separa de sua alma para que não a apodreça.

Ensina também as raízes que mantêm distantes o corpo espiritual e a alma material, separados, até que a carne ressuscita no precioso coração da sua saúde.

E isso que parece ser nada, é tudo.

Existem dons, existem poderes, existem mandatos, existem raízes e sucos de raízes.

Cascas precisas para isto e aquilo.

Certos tipos de chuva que se bebem e também certas pedras.

Como e quando utilizá-los e prepara-los, isso é o que sabe a ayahuasca.

E isso transfere se assim considera, se o corpo e a alma o merecem.

Quando se sabe chamar a ayahuasca com urgência e com respeito, não tem erro, não tem milagre, nem antes nem depois da ayahuasca.

Existe o que merecemos conhecer, o que merecemos ignorar.

Tudo é merecimento.

Quando se sabe chamar a ayahuasca é fácil todo o impossível.

Porque até a cinza se converte em água quando um sedento a beija.


Fragmento do romance Las tres mitades de Ino Moxo de Cesar Calvo.


Tradução livre: nuno g.

Versão utilizada para tradução:

https://pacarina-peru.blogspot.com/2016/11/ayahuasca-cesar-calvo.html



[1] Divindade andina. Refere-se aqui ao fato de que no século XVI os quéchuas designaram assim os espanhóis e, por extensão, aos estrangeiros em geral.

[2] Cânticos sagrados amazônicos.


quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Pelas mãos dos ensinamentos ofertados pelo haxixe a um filósofo alemão

   Desistir no dicionário é ausência. Larissa dorme. Assucena também. Alice já foi à escola. Dylan Ortega a aguarda com uma pergunta insistente: ¿cuál es la comida típica de Brasil? Uma chuvinha vai despertando a cidade. A Marcelo Guerra só interessa o Maracanã. Ainda não sabe, mas o futebol e a ciência são metamorfoses modernas do antigo espírito religioso. O destino mais nobre da crônica é se converter em canção. E se algum dia chega a ser executada em jardins de infâncias e funerais se realizará plenamente enquanto gênero literário. Discordo em tudo de Vargas Llosa, mas sou obrigado a reconhecer que aquela guerra era mesmo a guerra do fim do mundo. E, além disso, concedo, sem vacilação, meu perdão à ignorância de quem não consegue ver que ela se estende sobre o berço esplêndido de um presente onde tudo se move em direção ao esquecimento. Os serenazgos repetem sem saber, os movimentos das algas marinhas: vão e vêm, vêm e vão, sem saber por que, sem saber pra que, sem saber de onde, sem saber pra onde. A verdade é que aquela guerra nunca teve fim. Os olhos assustados da criança e do velho seguem olhando fixamente para o antiquado fuzil do soldado republicano. Dadá segue lavando os ossos de Corisco nas praças de nossas entediadas metrópoles. A urgência de escrever sobre a teoria da história subjacente à composição de Yo, el Supremo me persegue como o passado recente persegue nossas melancólicas e atormentadas sociedades. São tempos de decomposição e de abruptas e vertiginosas mudanças. Uma vez mais é preciso alterar tudo para que o mundo permaneça exatamente como sempre foi. O problema das formas narrativas é demasiado importante para permanecer nas mãos de especialistas. Assucena já foi à escola, esquecemos de levar a fotografia. Não sei quais sonhos povoam o sono de Larissa agora. Entre Arguedas e Cortázar desenham-se armagedom e apocalipses. Hoje, outra vez o fascismo estará sentado no banco dos réus. Seja qual for o veredito sua vitória é tão certa quanto a miséria que nos define. Restam catorze minutos antes de minha terapia. Uma lágrima escorre pela parede, sua discrição impressiona a onça que a espreita. A diferença entre vingança e justiça é ainda mais sutil quando cinco séculos pesam sobre cada mínimo gesto que se executa. Entender a história é tentar entender o que não pode ser entendido. Por essa razão é tão difícil escrever uma crônica, esse gênero escorregadio que durante décadas esteve aprisionado nas folhas de embrulhar peixes. A poesia é para amadores, por isso tinha razão Arguedas quando afirmou que o exercício da escrita não era exatamente um ofício. Ele sabia que, entre nós, ofícios são sinônimos de ganha-pão. Sigo obcecado por reescrever meu dicionário. Aprendo com Assucena enquanto ela tenta pegar pássaros e esquilos no Campo de Marte. Poetas estão sempre insistindo em alcançar o inalcançável. Por essa razão, o verbete sarjeta está na mesma página dos verbetes amor e desespero. E nenhuma importância tem o fato de que essas palavras iniciem com letras distintas. Afinal de contas, não é questão de palavras ou de letras. A semântica é demasiado importante para ficar clausurada no gélido coração dos gramáticos. Através dela nossos mortos falam com nossos filhos. Há um céu enterrado neste chão. Assim como existe um sangue que habita a letra e uma carne que respira no vácuo dos ossos. Ontem um ministro do supremo tribunal acendeu um túnel no final da luz. Quem espera nunca alcança. Cavalos galopam sobre a relva que amanhece antes de nascer. Meu rosto é exatamente o mesmo do ano em que a morte quase nos tragou: devora-me ou te decifro. De abismos não se escapa, aprende-se sua linguagem. O amor ao escuro e à insônia é uma dádiva e minha gratidão por sua existência é imensa. Sonhei outra vez com São Miguel e, muito embora nada recorde do sonho, posso narrá-lo com precisão e destreza. Havia uma montanha maior que o mundo e uma criança aos prantos aos seus pés. Havia um assassino onipresente e onisciente. Na sua espada estava escrita à mão e carvão a palavra milagre. Havia uma prisão e um desejo de conhecê-la por dentro. Havia uma luz muito escura e muito antiga. Havia um grito idêntico ao silêncio onde crescem as raízes da vida. O resto não posso dizer. Não quero dizer. Não devo dizer. Isso seria como devorar o mesmo coração duas vezes. Como apunhalar Judite pela milésima vez. Profanar o silêncio sagrado de Hermenegildo e todas as coisas que ele me ensinou sobre a forma correta de pronunciar o não. É um milagre que a linguagem tenha rasgado minha pele, me ensinado a ver e ouvir as cores e os sons de mundos que, por não mais existirem, são os únicos caminhos à encruzilhada entre a esperança e as promessas perdidas de redenção. Las comidas típicas de Brasil son feijoada y maniçoba - o que interessa no futebol é que ele nos permite seguir acreditando que Dadá não lavou à toa os ossos de Corisco. A guerra segue: dentro e fora de nós. Às vezes a história nos indica que abraçar a morte é a melhor maneira de dizer sim à vida. A lágrima segue escorrendo pela parede. Agora sim, o verde do limbo se revela: olhar para trás segue sendo a melhor maneira de ver o futuro. Os antigos que me ensinaram isso estão longe, mas suas vozes me chegam de muitas maneiras. Existe uma flecha que sabe a trajetória que conecta o ódio ao amanhã - era isso o que o sonho queria dizer quando me permitiu tocar a lama roxa e comer o chão da minha infância com as próprias mãos. Enquanto houver frio e poesia haverá crença que as coisas possam se reconciliar com seus nomes, ainda que para isso as águas turvas tenham que aceitar a insana violência acumulada em suas margens. Tempo é uma divindade que não suporta o reflexo da imagem de sua própria face: crônicas versam quase sempre sobre as formas como as árvores podem multiplicar significados. Suspeito e pressinto que entre folhas, frutos e sementes existe algo que um feiticeiro poderia nomear sorriso discreto ou lunar resignação. A cidade desperta o sorriso da chuva. Feiticeiros são seres que antecedem e desconfiam de qualquer definição. Crônica é o gênero que brinca com ossos e cinzas e que afirma o não como perigo, voracidade e revelação. Nada mais me é permitido dizer além do que já foi dito.


nuno g.

Lima, 11 de setembro de 2025.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

a arte de honrar os lugares onde nunca estivemos

         Corazón serrano na rádio da padaria: 9 bolillos de queso y un vaso de chicha morada! Ainda é domingo e haverá praia, lasanha e sexo. A voz de um rio distante me pergunta sobre as bibliotecas incendiadas. Não sei o que dizer. Teria que falar outra vez sobre o punhal atravessando o corpo de Judite, o silêncio insondável de Hermenegildo e a ausência inquietante de Adélia. As pessoas aqui traçam na face o sinal da cruz ao sair de casa, esqueceram os ensinamentos das aulas de catecismo ou preferem ignorar que esse gesto é insuficiente para afastar a luz dos demônios que as atormentam quando despertas. O rio infinito insiste em me perguntar sobre as bibliotecas incendiadas como se fosse possível revelar qualquer coisa razoável sobre o proceder de nossos ancestrais. As pessoas esqueceram que são réplicas de si mesmas e que todos temos o poder de nos desdobrarmos através do tempo e do espaço. O fogo perpetua até o indesejável. O fogo perpetua principalmente o indesejável. O fogo acende, ante nossos olhos, todos os artefatos do museu do irremediável. O que interessa antecede ao nascimento de qualquer nome, à violência que é a imposição de qualquer nome. Corazón serrano na rádio da padaria: un café pasado y una empanada de pollo! Não consigo esquecer as bombas que destruíram o Caldeirão, nem tampouco aquele homem que antes de mim veio a esse país e desapareceu sem deixar rastro. Dona Rosa, que está em algum lugar onde nunca estive, levou consigo as razões dos incêndios que transformaram em cinzas as bibliotecas de José e Antônio Gonçalves. O fogo conserva as vozes e seus tempos. O fogo tem mais artimanhas que a morte. Exílio é uma palavra muito estreita para definir a peregrinação de quem sonha com serpentes e enigmas. A arte de honrar os lugares onde nunca estivemos é semelhante à arte de honrar os lugares onde sempre estivemos. Em ambos se incendeiam bibliotecas no afã de apagar o que lhes incomoda, mas o fogo reescreve com a verve das cinzas os signos incendiados. Alice despertou de mal humor, Assucena também. Larissa sonhou com minhas tias: novenas, folhas de chá e as doenças de minha vó. A voz dos lugares onde nunca estivemos pediu a Bruno que rezasse uma Salve-Rainha. Talvez fosse dona Rosa tentando me mostrar que existe algo próximo à misericórdia no enigma que habita a poesia. Ou talvez fosse apenas a súplica de um rio, distante e infinito, exigindo mais coragem ante a demoníaca luz onde brotam as flores e as lágrimas que anunciam a chegada da primavera.


nuno g.

Lima, 07/09 de setembro de 2025.