quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
Espírito natalino
terça-feira, 17 de dezembro de 2024
Tudo aqui é antigo III
Os furúnculos que atormentam os suicidas
O sol que incendeia o juízo
A torpeza que paralisa os débeis
A insanidade que reluz os delírios dos gênios
O som do ventilador na madrugada
A delicadeza das flores selvagens
E a esperança que esse esquimó pousado sobre meu ombro esquerdo
Revelará a qualquer instante o sentido exato de sua presença
Tudo aqui é antigo
O amor o amor o amor e as trevas de onde brota todo amor
A suavidade a suavidade a suavidade e o engano onde arde tudo que é suave
E essa estrela vermelha carregada por um condor machucado
À espreita de um passo em falso
Ou de um súbito instante de iluminação
Tudo aqui é antigo
Essa memória primitiva que nos protege de nós mesmos
E a permanente saudade de tudo que não chegamos a viver...
nuno g.
Ioróró, 18/12/24
Tudo aqui é antigo II
Tudo aqui é antigo
O corpo de Hart Crane se dissolvendo no mar
E as luzes dos vaga-lumes no cio
Os beija-flores que entram pela janela
O choro dos bebês
A sede e a fome de mistério
Tudo aqui é antigo
Os vitrais que sobreviveram aos terremotos
As pílulas que o andarilho leva ao bolso
E o mormaço que acompanha nossos passos
Tudo aqui é antigo
As velas que nossas mãos trêmulas insistem em acender
A procissão de eguns que dançam em torno à árvore de nossas mirações
E a insônia que nos protege de nossos próprios espantos
Tudo aqui é antigo
Como o vento dos mitos mais antigos
Como a tempestade que aguarda a hora de desabar sobre nossas cabeças
Como os cabelos de Andrômeda, a princesa etíope
Tudo aqui é antigo
Tudo aqui é memória de um coração forasteiro
Tudo aqui é marulho e arrebentação
Como o fogo que em cinza transmuta todas as coisas
Tudo aqui é antigo movimento de um velho ferrorama
Vagando perpetuamente do Nada ao Nada
Até que nos trilhos não haja memória alguma das ruínas do mar
Nem dos ossos das tempestades
nuno g.
Toróró, 18 de dezembro de 2024.
Tudo aqui é antigo
Tudo aqui é antigo
Esses cacos de cristos de cerâmica e parafina
Que encantam arqueólogos
Que enfeitiçam antiquários
Que mergulham em estado cataléptico toda sorte de alquimistas e falsários
Tudo aqui é antigo
Tudo aqui são ruínas ossos e ruínas
Essas cartas de baralho esbranquiçadas pelo sal dos mares
Esses mapas de céus imaginários com suas constelações de medos e fúrias
Esses transeuntes de passos desajeitados e sobressaltados
Tudo aqui é antigo
Essas sombras, essas águas, esse trem em meus sonhos
E essa biblioteca que não termina de incendiar
Tudo aqui é ornamento à base de luzes arcaicas
Como essas fotografias de Pedro Juan num puteiro de São Paulo ou da Barra do Ceará
Como essas árvores e esses presépios e nossas mãos sujas tentando tocar a promessa
Tudo aqui é antigo
Essa lua cheia, essa chuva de meteoros, essas palavras ciganas
Essa quentura, esse bolor, essa atmosfera de fascismo e impunidade
Tudo aqui é antigo
Como o som dos carapanãs de Iquitos
O cheiro de sexo escorrendo pelas paredes
Gotejando entre as frestas do telhado
Enquanto o anjo Azul segue sobrevoando a noite em que nos afogamos...
nuno g.
Toróró, 17 de dezembro de 2024.