Chove sobre essa cidade e sobre os sonhos que antecedem sua existência.
Chove sobre essa cidade e sobre suas esquinas encantadas.
Chove sobre essa cidade e sobre suas ruínas.
Chove sobre essa cidade e sobre seus feitiços, suas mentiras e suas esperanças.
Chove sobre o mercado, sobre o brega, sobre os terreiros e sobre as igrejas.
Chove sobre os sonhos que tive com essa cidade antes que ela existira.
Chove sobre a Serpente e sobre o veneno da Serpente.
Chove sobre as pequenas ilhas e as garças que nelas dormem.
Chove sobre as flores que semeei, sobre os frutos em germinação
sobre o azeite que ferve no tacho da desolação.
Chove sobre o sono dos impávidos transeuntes que descansam a cabeça sobre a relva.
Chove sobre o que restou e sobre o que ainda não é.
Chove e nas águas que caem dos céus se percebe que há lágrimas, sangue e mel.
Chove sobre as orações dos cães, sobre as galinhas e sobre o pequeno cervo que vive às margens do lago da represa
Chove e o silêncio do sol se espalha como a noite imensa que nos salva de nós mesmos.
Chove e no meio das nuvens se pode ver uma tímida lua amarelada sorrindo.
Chove sobre a Faceira, o Toróró e o Engenho da Vitória.
Chove sobre a carne que é a face mais feroz do espírito.
Chove sobre as culpas, os pecados e o escárnio de todos os viventes.
Chove sobre a estupidez, a ignorância e a soberba humana.
Chove sobre os sentimentos de exaustão e repugnância.
Chove sobre o amor e a delicadeza.
Chove sobre os úteros em fúria e sobre os rios que compõem a paisagem.
Chove sobre os ombros de Tempo e sobre as ferramentas do Ferreiro.
Chove sobre a solidão, a angústia e o ódio que move astros e montanhas.
Chove sobre cada pensamento fascista e sobre a sombra que oculta cada gesto.
Chove sobre o Nada e sobre tudo que é inexistente.
Chove sobre os medos imaginários e sobre o ruído dos motores.
Chove sobre o sexo das meninas do brega.
Chove sobre a droga enterrada nos quintais.
Chove sobre a lápide do túmulo do meu filho.
Chove sobre o futuro corrompido e as pessoas anestesiadas e sonâmbulas.
Chove sobre os rostos envelhecidos e as saudações estéreis.
Chove e a alegria reina em cada gota de chuva.
Chove sobre a flor em febre e sua agônica maneira de estar no mundo.
Chove sobre os breviários onde estão catalogadas a traição e a falsidade da espécie.
Chove sobre os escorpiões e sobre o esperma derramado sobre a tristeza do lajedo.
Chove sobre as crianças, sobre os velhos, sobre os aleijados e sobre as formas indefinidas.
Chove sobre as palavras que ainda não nasceram.
Chove sobre tudo que até ontem parecia morto.
Chove sobre a crença bestial que move cada ser vivo.
Chove sobre as urtigas, sobre a covardia e sobre o gozo antecipado.
Chove sobre os insanos acarajés de realidade e sobre a poesia de Ronny Bonn.
Chove sobre o café e sobre a sonolência dos bêbados que amanhecem na rua da Feira.
Chove sobre nossos ancestrais e nossos descendentes.
Chove sobre a igreja matriz e sobre a estátua de Nossa Senhora do Rosário.
Chove sobre cada passo de Chuín em direção ao amanhã que se dissolve.
Chove sobre as mentiras e sobre os ensinamentos que só a mentira é capaz.
Chove e a água escorre nas ladeiras do Quebra-bunda e do Manoel Vitório.
Chove sobre o rio pitanga e sobre a ladeira da cadeia.
Chove sobre a violência do passado.
Sobre a estupidez do presente.
E sobre a memória de todos os raios que anunciam o florescer da lúcuma, o desabrochar das espadas e a súbita aparição das roxas flores do Senhor São Miguel...
nuno g.
Toróró, 20 de fevereiro de 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário